A mulher no ensino superior

Entrar na universidade ainda é o sonho de muitos jovens, apesar do acesso ao ensino superior ter sido facilitado nos últimos anos. Atualmente, temos mais de 7 milhões de estudantes no ensino superior, e dos matriculados em 2013, 55% eram mulheres. Dos que se formam cerca de 60% são mulheres. Sabe qual é o aluno universitário típico? Uma mulher, de 21 anos que estuda a noite, em algum curso de bacharelado de uma  universidade particular.

A primeira universidade, nos padrões ocidentais, foi a de Bolonha na Itália, em 1150, seguida pela Sorbonne em 1214. No Brasil, ela só aparece em 1808, por meio da Escola de Cirurgia da Bahia, e definitivamente, como universidade, com a fundação da UFRJ em 1920.

Domitila de Carvalho foi e primeira mulher a ser admitida na Universidade de Coimbra em 1891, e apesar de seu histórico escolar exemplar, a condição para que fosse aceita era de usar sempre roupas pretas e chapéis discretos. Rita Lobato foi a primeira mulher a se formar em medicina no Brasil e a segunda na América Latina. Sabe em que ano? 1887. Sonja Ashauer foi a primeira brasileira a ter um doutorado em Física em 1948. Todas essas mulheres tiveram que enfrentar muitas oposições da parte de suas famílias, amigos e da própria universidade.

Isso não quer dizer que nunca houve uma preocupação com a educação das mulheres. Elas eram ensinadas a bordar, a como se comportar como uma dama, idiomas, música, enfim, tudo que as preparassem para exercer o seu papel na sociedade da época: esposa e mãe. Um grande avanço nesse cenário foram as universidades exclusivas para mulheres, predominantemente nos Estado Unidos, mas elas só ofereciam cursos de bacharelado e quase nenhum mestrado ou doutorado. No Brasil, elas só puderam entrar na universidade após um decreto de D. Pedro em 1879.

Ainda bem que tudo isso mudou e hoje as mulheres podem estudar livre de opressão e desenvolver suas capacidades intelectuais tranquilamente. Será?

Suponha que você vai entrar em duas salas de aula da sua universidade. A primeira turma é do curso de Engenharia Mecânica. A segunda é de Pedagogia. Qual é a composição da sala? Mesmo sendo a maior parcela de universitários do Brasil, as mulheres representam apenas 5,1% das matrículas nas áreas de engenharia e 3,7% nas áreas de física, matemática e ciências da terra, segundo levantamento de 2011 do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). Daí você pode argumentar: isso é uma questão de escolha, não tem nada a ver com gênero. Será? Será que nenhuma mulher quis ser engenheira mecânica? Será que a escolha da carreira nada tem a ver com o fato de você ser mulher ou homem, é só questão de vocação?

15 de junho de 2015, perto das 18h, uma aluna caminhava por umas das praças do campus do Butantã da USP para carregar seu cartão do bandejão. Foi estuprada. Demorou 13 dias para contar ao pai. Quando foram a delegacia o policial perguntou se ela usava saia na hora do ataque. A Universidade de São Paulo, onde eu estudo e onde esse crime aconteceu, tem uma guarda universitária patrimonial apenas e nenhum efetivo feminino, nenhum espaço oficial de defesa da mulher, uma iluminação péssima e espaços vazios.

Esses dias eu estava a caminho da aula e parei pra ler uns avisos em um mural no corredor do prédio de Ciências Sociais, e um papel me chamou atenção, estava escrito assim:

Professor: Sua piada machista não faz de você engraçado. Faz de você apenas mais um babaca graduado.

Confesso que muitas cenas voltaram a minha mente naquele momento. Quantas vezes eu presenciei piadinhas, aparentemente inofensivas, mas que  apenas diminuíam as mulheres e reforçavam esses esteriótipos que estamos cansadas de ouvir? Me pergunto qual foi o dia que eu finalmente parei de rir delas, acho que eu deveria celebrá-lo. Quantos casos de companheiras que tentaram se aproximar dos professores com interesses acadêmicos e foram interpretados de maneira errada por eles e pelos próprios amigos. Quantos casos de abuso de poder…

Em 2014 as universidades paulistas foram investigadas em uma CPI e sindicâncias para apurar denuncias de estupros e violência em trotes (seja física ou moral). Histórias que me deixaram perturbada e arrasada, de verdade. Meninas estupradas por colegas de sala, em festas da universidade por seguranças, ex-namorados etc… Em agosto, veio à tona um blog que ensinava  como estuprar mulheres na USP, dando dicas de melhores lugares, táticas e ofensas. Eu chorei lendo aquilo. Eu era odiada na minha própria universidade, estava sob ameaça. Ou será que eu sempre estive?

O que concluo de tudo isso é que, sim, as mulheres conquistaram um espaço na universidade, um espaço fundamental, somos maioria e temos um tempo médio de estudo maior que os homens, mas será que alcançamos igualdade na prática? Onde eu encontro apoio? Nos coletivos feministas? Onde estão os meus irmãos e irmãs? Como eles se posicionam em relação a tanto ataque e violência?

A Aliança Bíblica Universitária sempre foi uma parte fundamental da minha vida universitária, a minha prioridade muitas vezes. Mas infelizmente, não foi no meu grupo que eu encontrei o apoio que precisava nessa questão. Se eu pudesse voltar no tempo teria organizados minhas companheiras de missão e buscado nelas o meu amparo e apoio, e juntas buscaríamos conforto em Cristo, aquele que amou demais as mulheres, que lhes deu voz e ouvido.

Que nós saibamos reconhecer nosso espaço de privilégio dentro da universidade. Que sejamos sensíveis as opressões institucionalizadas a nossa volta. Que os aparentes padrões não sejam absolutos e que mais mulheres tenham coragem, de exercer sua vocação sem medo da opressão do mercado ou da universidade. Que sejamos irmãs. Que sejamos um corpo.

 


Emily Monteiro está tentando se formar em Relações Públicas na Universidade de São Paulo. Acha a vida chic, decora as coreografias originais das músicas, tem jeito de cowboy num corpo de mulher, participa (quando consegue) das reuniões do coletivo e da frente feminista da USP e é ABUense desde 2013 e contando.


O conteúdo e as opiniões expressas neste texto são de inteira responsabilidade de sua autora e não representa a posição institucional da ABUB, outra instituição ou de todas as organizadoras e colaboradoras do Projeto Redomas. O objetivo é criar um espaço de construção e diálogo.

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