Um chamado ao que realmente importa

Quando um rapaz olhava para uma moça de forma errada, eu achava que a culpa era dela. Quando diziam que um palmo acima do joelho era o limite e minha roupa estava muito curta, eu achava que a culpa era minha. Quando era elogiada por ser fofinha e meiguinha, eu achava que falar o que eu pensava era o errado, porque quando eu expressava minha opinião e era chamada de brava, entendia que aquilo era feio. Quando eles diziam que era preciso emagrecer, eu entendia que ser gorda era um peso, era um erro e eu seria ridicularizada. Antes de que pudesse saber como resolver raiz quadrada, eu já sabia que precisava ser pura, limpa, cheirosa, organizada, meiga, quieta, magra e não deveria ser curiosa, vulgar, nem me vestir de forma diferente, nem pintar o cabelo ou ter um piercing, nem ouvir rock ou rap, nem falar o que penso, e jamais, sob hipótese alguma, usar tomara-que-caia na igreja. Antes que eu fosse atingida pela realidade do TCC, eu também sabia que precisava me vestir melhor, que precisava me cuidar mais, que precisava domar meu cabelo e que precisava aprender a cozinhar.

Esse tipo de discurso é feito por homens e repetido por mulheres. Esse tipo de discurso machuca. Machuca a mim e a tantas amigas que ouvem os mesmos pensamentos de amigos diferentes. Às vezes de forma tão enraizada dentro deles que nem se percebe os estereótipos que estão repetindo – mesmo que sejam pessoas que pensem diferente, que estudem em áreas diferentes e mesmo que pareçam um pouco mais abertas em suas opiniões.

Somos julgadas a todo momento pela maneira de nos vestirmos, pela forma como nos comportamos e pela nossa aparência. Somos julgadas, silenciadas, reprimidas e induzidas a andar na linha. Sofremos internamente, nossos olhos se enchem de lágrimas que fomos ensinadas a controlar. E da mesma forma aprendemos a não saber explicar a eles o que incomoda, aprendemos a não ter repertório suficiente, aprendemos a não saber expressar como nos sentimos, aprendemos os “não posso”, “não devo colocar minha opinião”, “não é importante”, “não é bom”, “vou ofender alguém”, “estou criando um conflito”, “preciso me calar”, “preciso aceitar”.

Como podemos aceitar um discurso desses? Como podemos até mesmo repetir um discurso desses? Será que não percebemos que tipo de influência ele causa? Ao invés de amar uns aos outros, carregamos estereótipos e os atiramos nas pessoas que não se encaixam. Ao invés de ajudar, julgamos. Ao invés de ouvir, falamos. Ao invés de nos importar, silenciamos. Valorizamos o individual, desde que não fuja do padrão.

Há meninas excluídas dentro da sua sala de aula por não se encaixarem no padrão imposto. Há meninas alvo de fofocas, mentiras e ofensas dentro de grupos cristãos. É preciso conversar a respeito, é preciso parar, é preciso mudar. É preciso amar uns aos outros e saber exortar em amor, deixando de lado o eu. Não temos todos um só Pai? É preciso olhar pra bíblia, olhar pra Deus e ver como devemos nos comportar, como podemos ajudar, onde falta mudar. Jesus nos ensinou a não julgar pela aparência (“O Senhor, contudo, disse a Samuel: ‘Não considere sua aparência nem sua altura, pois eu o rejeitei. O Senhor não vê como o homem: o homem vê a aparência, mas o Senhor vê o coração.'” 1 Sm 16.7) e a não ofender as pessoas e precisamos nos guiar pelos Seus ensinamentos e não por nossos próprios pensamentos.

Em que direção queremos e devemos ir? Imagine como seria diferente nossa relação com as pessoas se pudéssemos nos livrar da vontade de querer colocar todo mundo dentro de um mesmo padrão. Será que nossa valorização de um padrão não é reflexo de um estereótipo cultivado pela sociedade? Será que nós, mulheres, precisamos mesmo seguir o mesmo padrão de vestimentas, ser meigas, magras e não expressar opinião? Ou será que o ambiente seria diferente se a gente se atentasse ao que realmente importa?

Jesus se importou com a fé da mulher com fluxo de sangue, Jesus se importou com o arrependimento da mulher adúltera, Jesus se importou com o coração da samaritana, Jesus deixou que mulheres o seguissem, Jesus ensinou Maria e Marta, Jesus permitiu que uma pecadora o ungisse porque se importava com o seu coração e Jesus se revelou primeiro a uma mulher depois de ressurgir e mais tarde reprovou o estereótipo de que as mulheres eram mentirosas quando os discípulos não creram nelas. O Reino que Jesus anunciou é o mesmo que esperamos, que aguardamos e o qual ansiamos. É o Reino que pedimos diariamente para vir a nós, porque Cristo nos ensinou assim. É o Reino pelo qual devemos lutar – e nele não cabem estereótipos.


Laylah Raeder é uma pessoa comum que buscar seguir a Jesus e, apesar de falhar muitas vezes, quer influenciar outras pessoas a fazerem o mesmo. Fez parte da ABU São Carlos, estuda arquitetura no IAU-USP e é apaixonada pelos cafés do Jack.


O conteúdo e as opiniões expressas neste texto são de inteira responsabilidade de sua autora e não representa a posição institucional da ABUB, outra instituição ou de todas as organizadoras e colaboradoras do Projeto Redomas. O objetivo é criar um espaço de construção e diálogo.

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