Objetificar: verbo transitivo direto e doloroso

Quase todos os dias quando saio de casa para ir ao estágio, ou para qualquer lugar que seja, ouço saudações pseudo educadas, e outras nem um pouco, de homens durante o percurso até meu destino final. Não importa o horário, a roupa ou acessório. É algo que já faz parte do meu cotidiano e acredito piamente que não sou exclusiva nesta situação. Tem aqueles dias que tais palavras, sejam direcionadas a você ou a outra mulher, tem o poder de estragar o dia, não é verdade? De tolher o bom humor, desencadeando no pensamento questionamentos, afirmações, dúvidas do tipo: será que errei em usar essa roupa? Essa calça está muito colada? Eu devia ter dado uma resposta ou foi melhor ficar calada? Melhor não, vai que ele resolve me agredir… Devo ter exagerado no tom do batom etc. Mas ei! Vamos parando por aqui, desde quando, onde está escrito e quem determinou que mesmo em qualquer destas questões são permitidas a um homem conhecido, ou não, dizer palavras de baixo calão, elogio supérfluo ou “bancar o cavalheiro” quando isso não é uma realidade no seu tratamento para com as mulheres em todas as esferas de suas relações? E sobre o falso o cavalheirismo, afirmo sua falsidade quando não é uma realidade em todas as esferas de suas relações, pois se começa nessa prática: não fazendo mamãe e irmãs de domésticas, dividindo as tarefas com suas amigas, nos eventos da Igreja, da Aliança Bíblica Universitária do Brasil, seja indo lavar as panelas, cozinhar ou varrer e também dando o devido valor, respeito e dedicação no seu ambiente de trabalho se possuir uma chefe, respeitando sua esposa e filhas, pensando nelas quando cogitar interagir de forma indevida com uma mulher na rua e por aí vai.

Talvez o que eu esteja dizendo até agora não seja novidade pra ninguém ou tenha servido pra tirar a trave dos olhos de alguns. Como afirmou Bianca Rati: “Temos direito de falar sobre nossas tempestades, aliás, temos o dever de fazê-lo; para que outras mulheres possam saber que não estão sozinhas entre raios e trovões e para que os homens percebam que é difícil nadar contra a maré.” Pode parecer besteira, mas ainda tem quem diga, ah, pense que você está sendo elogiada, que é bonita, não ligue! Ligue sim, moça, as mulheres, sejam no estereótipo que for, não são obrigadas a ouvir o que bem querem dizer sobre elas, não são obrigadas a ficar se culpando sobre o que veste, como se maquia, ou o que falou em um diálogo que possa ter provocado tal reação em um homem sobre seu corpo, seu pensamento. Já parou pra pensar se você anda presenciando homens andando pela rua sendo chamados de gostosos, recebendo “bom dia, lindo!” e pedindo telefone deles? Você já viu na Igreja reclamação sobre a roupa dos homens? Você já observou como as mulheres grávidas (ou não) são tratadas em empresas comparando ao tratamento para com os funcionários homens? Será que tá tudo normal?

Normal para uns, onde a mulher é uma espécie de robô que deve ser programado para ser de determinada forma, caso contrário não serve, é hostilizada, deixada de lado. E nesse deixada de lado entram aquelas que questionam, e que até se declaram feministas, e sobre elas e o feminismo Ana Elisa Crispim, nos admoesta: “Há muitas pautas do movimento feminista das quais podemos discordar conforme as contextualizamos biblicamente. Da mesma maneira, há pautas extremamente relevantes que moldam nossas relações, e que biblicamente são razão suficiente para nos movermos em direção ao confronto e morte de nossos pecados.”.

Mulheres em que seus fenótipos não estão no padrão moldado pela mídia com o “vai verão”, “longo sedutor”, entre outras, são as deixadas de lado e as que estão dentro desse padrão midiático também são atingidas, pois são tratadas como os objetos que servem de enfeite e troféu, não como seres humanos, dignas de elogios, exaltação pelas suas habilidades intelectuais, pelos seus gestos de humanidade para com o próximo.

Nós mulheres devemos não julgar essas por estarem, de certa forma, corroborando para esse modelo, mas sim, como nos exorta Jessica Grant: “[…] precisamos aprender a ver as outras mulheres como nossas irmãs, cuidarmos umas das outras e ouvirmos umas às outras, destruindo esses sentimentos de competição e parando de julgar nossas irmãs, defendendo-as do sofrimento.”

Se você é privilegiado em andar nas ruas sem medo de ouvir indecências, sem medo de ser estuprado, ocupa a mesma função que uma mulher no ambiente de trabalho e recebe mais que ela, tem algum cargo meramente para melhor condução no ambiente eclesial e se vale de privilégio sobrepondo-se a sua irmã que não tem a mesma função ou direito não se levantar contra a injustiça e a desigualdade, você é mais um na multidão. “A coisificação da mulher é um dos primeiros dentre os tantos passos cruéis que compõem o caminho da violência, lugar onde se chega após atravessada a ponte da indiferença com a dignidade do ser… Indiferença que se manifesta das mais diversas formas, que vão desde o ensurdecimento quanto aos gritos por socorro, até a incapacidade de compreender a essência e a dor da fala por alegar que o grito não é a melhor forma de reagir à violência perpetrada.” Diz Anna Flávia Gomes.

Que você seja aquele conforme Provérbios 21.21: “Quem segue a justiça e a lealdade encontra vida, justiça e honra.” Glorificando aquele que é o melhor exemplo de como se tratar uma mulher, seja ela Marta ou Maria, a mulher do fluxo de sangue ou a mulher samaritana, seja ela mulher, imagem e semelhança do Criador.

 


Vanessa Santos é projeto de historiadora, soteropolitana, ABUense e muito mais.


O conteúdo e as opiniões expressas neste texto são de inteira responsabilidade de sua autora e não representa a posição institucional da ABUB, outra instituição ou de todas as organizadoras e colaboradoras do Projeto Redomas. O objetivo é criar um espaço de construção e diálogo.

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