Marinheiras de copo d’água – sobre as tempestades das mulheres

“Ai, tudo isso é só uma brincadeira/ é um caso isolado/ a mulher estava pedindo/ é só elogio vocês estão fazendo tempestade em copo d’água!”

É muito fácil falar que as mulheres fazem tempestade em copo d’água quando na verdade, fazem de tudo para nos manter dentro dele – com um limite restringido de espaço, um pequeno volume de opções, num contêiner de padrões.

Durante toda a história, as mulheres tem sido chamadas de loucas e suas causas tem sido desvalidadas. Acha que não? Quantas vezes você já viu uma mulher nervosa por algo e se perguntou (ou pior, perguntou para ela) se estava na TPM? Quantas vezes você já não achou que ela estava exagerando sem mesmo antes se importar com o que ela estava sentido?

Nós dizemos que as mulheres são emocionais e os homens racionais, sendo assim, tudo aquilo que é lógico, válido e útil para esse mundo só pode partir de um homem e tudo aquilo que é descontrolado, vulnerável e sensível vem das mulheres. Só existem dois caminhos: ou eu, mulher, ignoro completamente meu lado emocional e me torno fria, insensível e sem transparecer emoções (sendo chamada de mal-comida, mal-amada, insegura e frustrada) ou eu abraço meu lado emocional e convivo com a realidade de não ser levada a sério, de ter sempre um homem querendo me “explicar como o mundo funciona”, de não ter senso de humor…

Não há como navegar sem ter um homem no leme validando nossa jornada, se somos frias precisamos deles para nos amarem, se somos emocionais precisamos deles para nos colocarem na linha.

Das tempestades – as realidades

Nas correntezas da vida, as mulheres passam por problemas muito sérios, problemas esses que acontecem conosco apenas por sermos mulheres e por outros – que só se tornam problemas –  porque somos mulheres, como: corrigir alguém, se incomodar com alguma atitude do namorado, falar em público, sair na rua a noite, entre outros.

Essas tempestades são reais, numa proporção muito maior do que um copo d’água, o problema está nas águas fluviais que embasam a nossa sociedade.  Tempestades que causam avalanches em nossa autoestima, destroem o telhado dos nossos sentimentos, encharcam nossos sonhos e dificultam a nossa chegada nos lugares –  tempestades tão barulhentas que nos silenciam.

Do direito a tempestadear

Nós nos sentimos ofendidas com as cantadas na rua, com a violência contra mulher, com os salários desiguais, com o silenciamento. Mulheres são emocionais, racionais e espirituais. Nós choramos, rimos e temos opiniões – nem sempre estamos certas, mas com certeza devemos ser ouvidas.

Temos direito de falar sobre nossas tempestades, aliás, temos o dever de fazê-lo;  para que outras mulheres possam saber que não estão sozinhas entre raios e trovões e para que os homens percebam que é difícil nadar contra a maré.

O quebrar do copo

O copo é essa redoma, onde se esforçam para condicionar nossas tempestades – a ferramenta de desvalidação das palavras, sentimentos e opiniões das mulheres. Mas que nós possamos, como irmãs, quebrar os copos, abraçar as tempestades umas das outras e conquistarmos as lagoas, rios e oceanos. E que vocês homens se disponham a ver muito além dos copos, que vocês enxerguem os seres humanos –  coagidos a se aterem à essas redomas, suas frustrações, alegrias e vontades  – seres que estão vivendo essas tempestades.

Ele acalma a grande chuva e o balançar do barco

Que todos nós sejamos como Cristo que não ignorou os clamores dos discípulos em meio a tempestade (Mateus 8: 23-27 / Marcos 4:35-41 / Lucas 8:22-25). Que verdadeiramente sejamos corpo, onde se uma parte sofre, todas as outras partilham o sofrimento, que façamos o possível para diminuir as turbulências uns dos outros.

E que nós mulheres tenhamos no coração a fé e esperança num Deus mais poderoso que qualquer raio e mais imponente que qualquer onda – e na certeza que, como Cristo acabou com a tempestade que atormentava o barco em que eles estavam, Ele também pode acabar com nossas tempestades.

 


Bianca Rati tem 20 anos, cursa Design Gráfico na UFPR, é cristã, feminista e sommelier de pipoca.


O conteúdo e as opiniões expressas neste texto são de inteira responsabilidade de sua autora e não representa a posição institucional da ABUB, outra instituição ou de todas as organizadoras e colaboradoras do Projeto Redomas. O objetivo é criar um espaço de construção e diálogo

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