Sobre cardápios, relacionamentos, (falta de) amor e posse

Relacionamentos interpessoais. Tão difíceis quanto essenciais ao viver!

Relacionar-se exige saber a nossa condição e a do outro… Que somos igualmente humanos e que a orientação dos relacionamentos interpessoais em muito difere da lógica imperante no vínculo entre possuidor e objeto possuído.

Os relacionamento-posse tem raízes na concepção que se tem quanto à pessoa com quem se relaciona e no olhar para o outro e vê-lo como passível de apropriação. O ser é desumanizado e colocado sob o status de coisa da qual se tem o  pleno uso, fruição e disposição.

Os vínculos estruturados sobre a noção de posse são orientados no sentido de que a finalidade do objeto é atender ao fim que seu possuidor pretende. O problema nisso é que cada ser tem em si a liberdade e autonomia que são basilares em sua dignidade e anuladas em cada objetificação.

Nos relacionamentos afetivos, incomuns não são os atos praticados e que resultam de um entendimento da mulher como objeto de propriedade de seu parceiro. Não são poucos os relatos que já ouvi de mulheres que são agredidas física e/ou psicologicamente por homens que sequer consideram suas condutas como agressões e que se justificam alegando que a companheira não cumpriu os deveres a ela destinados, tais como o de realizar com zelo as tarefas domésticas ou se calar e entender que a raiva sentida por ele permitia discursos verbais e atos agressivos.

A coisificação da mulher é um dos primeiros dentre os tantos passos cruéis que compõem o caminho da violência, lugar onde se chega após atravessada a ponte da indiferença com a dignidade do ser… Indiferença que se manifesta das mais diversas formas, que vão desde o ensurdecimento quanto aos gritos por socorro, até a incapacidade de compreender a essência e a dor da fala por alegar que o grito não é a melhor forma de reagir à violência perpetrada.

Que aprendamos com o Jesus que ouve os gritos “Filho de Davi, tenha compaixão de mim” e não reage com a indiferença ensurdecida tão típica desses (des)humanos que temos nos tornado… Desses clientes em potencial sempre atentos às inovações do mercado, desejos por serem legítimos proprietários dos mais modernos aparelhos e dos mais perfeitos humanos-produtos, mulheres-produto… Sujeitos à depreciação por falhas (tipicamente humanas) ou por discordâncias ou formas de expressar o que sentem ante às práticas que os subjugam e objetificam. Que os gritos por compaixão sejam ouvidos por nós e nos levem a romper o ciclo da indiferença e trazer dignidade humana a quem foi coisificado.

Que nossos relacionamentos não sejam orientados pela (i)lógica ser-coisa… Que não sejam firmados na idealização romantizada e desejante por um ser que perfeitamente se adeque ao fim que desejamos.

O objeto é que não questiona… É que não diz… É que não sente… Que pode ser tomado. É nos objetos que podemos imprimir nossos nomes… Os objetos é que são expostos orgulhosamente por seus possuidores.

Que não seja assim entre nós! Que estabeleçamos vínculos de pessoalidade… De gente para gente… De homem digno para mulher igualmente digna.

Que não queiramos ter e cultivar a posse do outro! O direito de uso e disposição da vida alheia não foi colocado em nossas mãos. E vida, abrange a dignidade no viver, a liberdade e a autonomia, que, por vezes, são retiradas de nossa compreensão do feminino.

Que sejamos capazes de ver homens e mulheres como seres criados à imagem e semelhança de Deus… Igualmente pecadores, igualmente reconciliados por Cristo… Igualmente humanos!

E, ruídas as estruturas da posse, que haja amor entre nós!

 


Anna Flávia Gomes é graduada em Direito pela Universidade Estadual de Montes Claros, advogada pro bono no Instituto Altiares, participa da ABU desde  2011. Também é viciada em baião de dois e brigadeiro (não juntos, obviamente).


O conteúdo e as opiniões expressas neste texto são de inteira responsabilidade de sua autora e não representa a posição institucional da ABUB, outra instituição ou de todas as organizadoras e colaboradoras do Projeto Redomas. O objetivo é criar um espaço de construção e diálogo.

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