Sobre os pequenos detalhes

Estamos tão afetados pelos valores que nos cercam que paramos de enxergar os detalhes. Quando somos beneficiados por certas situações, então, nossa tendência é de não analisá-las criticamente e isso é um perigo, porque podemos estar prejudicando outras pessoas a partir das tais situações que nos beneficiam. É partindo desse ponto que surge a discussão sobre alguns detalhes da conduta masculina que inferiorizam as mulheres. Primeiramente, quero deixar claro que na maioria das vezes as situações são tão corriqueiras que já deixamos de enxergá-las, passam despercebidas. A proposta é apontar algumas dessas situações para que tendo este problema diante dos nossos olhos possamos mudar nossa postura.

Vamos falar sobre as pequenas coisas.

1) Você sente mais facilidade em interromper um homem ou uma mulher? Por que? Quantas vezes você e seus amigos interromperam a fala de uma mulher por julgá-la insignificante? Já se perguntou o que os leva a agir assim? Espero que pare um pouco e reflita sobre o critério que tem usado ao julgar a fala de mulheres. Situações em que nossos discursos são interrompidos abruptamente por homens são extremamente desconfortáveis, humilhantes e (infelizmente) comuns. Principalmente em mesas de reuniões.  Provérbios 18: 2, 13 nos dão ensinamentos preciosos, que possamos aprendê-los sabiamente.

2) Você já ouviu uma ideia dita em voz baixa por uma mulher e  depois proferiu-a  em voz alta como se a tal ideia fosse sua? Receber o crédito que pertence à outra pessoa é uma atitude cristã?  Muitas mulheres acabam guardando grandes ideias para si ou simplesmente não requerem o crédito por suas ideias porque são estimuladas a permanecerem retraídas e não esboçarem opiniões. Essa atitude de apropriar-se das ideias só reforça um comportamento acuado das mulheres, o que não é nada benéfico para o desenvolvimento criativo feminino.

3) Você já explicou algo óbvio para uma mulher por achar que ela não era capaz de compreender? Nesse ponto não estou falando sobre explicar algum conhecimento específico de uma área que provavelmente a outra pessoa não domine, mas de explicar didaticamente para uma mulher coisas que qualquer ser humano com ensino básico e desenvolvimento mental completo saberia. Muitas mulheres são surpreendidas por homens que vem com explicações absurdas de “por que uma maçã é vermelha”, homens que acham que por serem homens sabem enxergar as coisas óbvias melhor do que as mulheres. Esse tipo de atitude além de ser humilhante vem para afirmar uma superioridade ou para demonstrar ter mais conhecimento. Algumas vezes os rapazes até acham que podem falar com propriedade maior do que uma mulher que é especialista em certa área em que ele não é.

4) Você já questionou a sanidade de uma mulher para se sair bem de uma situação?  Quando se faz esse tipo de coisa coloca-se em cheque o bom senso de uma mulher indevidamente, apenas para justificar atitudes irresponsáveis ou erradas por parte dos homens. No fundo é um tipo de manipulação psicológica, onde o cara apela pra recursos desleais tentando convencer a própria mulher e todos ao seu redor de que ela enlouqueceu ou não tem discernimento da realidade. Um exemplo é quando não tendo um argumento para interpor numa discussão usa-se a acusação de que a mulher “está louca”. É preciso ter cuidado para não cometer essa violência emocional que além de desleal foge muito ao padrão bíblico indicado para lidar com as relações interpessoais.

Todos os pontos elencados são importantes para termos relacionamentos saudáveis entre homens e mulheres. Que o nosso convívio possa sinalizar o Reino de Cristo nessa sociedade caída.  Biblicamente o relacionamento entre homem e mulher deve refletir o relacionamento entre Cristo e a Igreja, portanto temos que nos perguntar o quanto os nossos relacionamentos refletem desse ideal bíblico. Como as atitudes descritas nesse texto deturpam nosso testemunho? O quanto prejudicam nossas irmãs?  Que possamos viver em verdadeira unidade.

Que nós mulheres tenhamos coragem para denunciar esses pequenos detalhes que trazem prejuízo pra nós, e que também possamos identificar e conversar em amor com nossos irmãos para que entendam os danos que o acúmulo dessas atitudes tem nos causado ao longo da vida. Que tenhamos segurança para nos afirmar e prudência para proceder. Que os irmãos tenham o coração atento para ouvir nossa voz, entendendo nossas dores. Que reflitam e mudem suas condutas. Que juntos possamos glorificar a Deus através de relacionamentos saudáveis e que realmente reflitam o caráter de Cristo.

Para pesquisar: Manterrupting; Bropriating; Mansplaining; Gaslighting.

 


Thais Kétura Borges de Lima tem 22 anos, é cristã, ABUense, nordestina, negra, feminista e cursa Direito. 


O conteúdo e as opiniões expressas neste texto são de inteira responsabilidade de sua autora e não representa a posição institucional da ABUB, outra instituição ou de todas as organizadoras e colaboradoras do Projeto Redomas. O objetivo é criar um espaço de construção e diálogo.

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