Meninas malvadas

Vamos fazer um “jogo”? Eu descrevo algumas características, você imagina a aparência dessa pessoa, e no final desse texto a gente muda o jogo juntas, combinado? É uma pessoa falsa, invejosa, que disputa contigo aquilo que você quer e é interesseira. Imaginou? Aposto que há uma grande chance de você ter imaginado uma mulher. Se eu tivesse dito “recalque”, então… Pois é, isso não é aleatório, e nem longe da realidade.

Cena um: “Por que as meninas me chamam assim?”, perguntou com sinceridade e tristeza uma colega de escola quando tínhamos 13 anos. Não vou usar a palavra, era um palavrão que não gosto. Minha colega era uma menina muito bonita, atraía atenção. Respondi o que sabia: “Elas dizem que você fica com todo mundo”, e logo percebi que nunca havia questionado as histórias dos beijos dela. “Mas eu só fiquei com tantos caras”, ela respondeu, bem triste. Obviamente, não era um ambiente cristão, era apenas uma escola, e quase todas as meninas de lá ficavam com os meninos e não viam problema algum nisso. Inclusive aquele número me chocou: várias garotas que xingavam essa menina tinham ficado com muito mais meninos do que aquilo. Só que ela não tinha vergonha, atraía olhares, e não era amiga das “meninas certas”. Só por isso ela foi rotulada e excluída, mesmo sendo igual às demais, mesmo tendo apenas 13 anos.

Éramos apenas meninas, mas o espírito da competição entre mulheres já estava ali. Competição pra ver quem era mais bonita, quem conseguia conquistar aquele carinha, quem era a mais certinha, ou até quem era a mais safada. Eu nem sequer tinha menstruado, mas já tinha descoberto que minhas maiores inimigas poderiam ser outras meninas, e por motivo nenhum.

Cena dois: por discordar do posicionamento das colegas, uma menina ficou passando para outro grupo o que algumas diziam dentro de um espaço considerado de privacidade e confidencialidade entre mulheres. Claro que ela não se manifestou para dizer que não concordava, apenas deu acesso para que outro grupo fizesse chacota das meninas, ridicularizando-as. Simplesmente por discordar delas, ela se viu no direito de quebrar a confiança e rir pelas costas delas. Ela se sentiu superior, melhor, porque acredita que está certa, e elas erradas, e por isso sentiu que podia expô-las aos outros. Ela acredita que elas reclamam demais, fazem mimimi, ou fazem tudo de um jeito errado. Que a ideia delas de opressão é falta de garra, ou ainda um desejo bobo de ganhar atenção. Ela não escutou as meninas, não debateu com elas, mas traiu a confiança.

Eu quero muito acreditar que ainda existem meninas por aí para as quais histórias desse tipo são raríssimas de acontecer. Mas infelizmente são fatos costumeiros para a grande maioria. Muitas vezes somos vistas como inimigas, como competição, como “piores” do que outras meninas, e, pior: muitas vezes vemos outras meninas e as classificamos dessa forma. Não vale fingir: você nunca se comparou com outra menina e se sentiu melhor que ela? Ou, por sentir-se pior, passou a não gostar dela?

Infelizmente nossa cultura é marcada pelo pecado. A incitação à competição, o julgamento e a inimizade entre mulheres é uma dessas marcas, principalmente em relação aos relacionamentos amorosos e à espera pela aprovação dos homens. Vemos isso desde o passado, com Sara e Agar (Gênesis 16:5-8; 21:9-10) e Lia e Raquel (Gênesis 29, 30). O fato de privilegiarmos tanto a reputação das mulheres (mais do que a dos homens) e de valorizarmos tanto um relacionamento (sabe aquela sensação de que “preciso me casar” pra dar certo na vida e não ser solteirona? De que preciso alegrar o meu homem pra garantir que ele fique do meu lado e não de outra?) faz com que isso seja algo que realmente tenha a ver com as relações entre mulheres, e não só entre humanos.

É aí que surge o conceito de “sororidade”, ou seja, irmandade entre as mulheres. Para quebrarmos esse problema milenar,  precisamos aprender a ver as outras mulheres como nossas irmãs, cuidarmos umas das outras e ouvirmos umas às outras, destruindo esses sentimentos de competição e parando de julgar nossas irmãs, defendendo-as do sofrimento. Goste ou não da palavra, a ideia é importante. O conceito ético e prático surgiu na segunda onda do feminismo, lá pros anos 60, mas você não precisa se considerar uma feminista (isso é outra história) pra concordar com ele. Mas olhando pra isso eu me pergunto: onde erramos enquanto irmãs cristãs que não demos esse exemplo de forma marcante?

Somos irmãs

Aline Valek diz: “É tentador acreditar que “somos diferentes das outras” para tentar colher as recompensas por ser uma “boa garota”. Eu sei. O problema é que essas recompensas nunca virão. Se hoje odiamos as outras mulheres e não hesitamos em julga-las, atacá-las ou excluí-las, nada impede que amanhã os dedos que apontam para elas se voltem para nós mesmas. (…) Nenhuma de nós está imune – e por isso mesmo, por mais diferentes que sejamos, há muito mais em comum entre nós do que você possa imaginar.” (http://www.cartacapital.com.br/blogs/escritorio-feminista/as-mentiras-que-contam-sobre-nos-2270.html)

Padrão de beleza, sexualidade aceitável, pureza aparente, simpatia equilibrada, capacidade profissional, tudo isso é posto à mesa quando o assunto é a inimizade entre mulheres. Às vezes, para não “combater” outra menina, muitas também buscam apenas amizades masculinas, ao mesmo tempo julgando as mulheres silenciosamente como chatas, fúteis e falsas. Com a sororidade somos desafiadas a sermos contraculturais neste sentido, praticando empatia e misericórdia ao invés de competição e inimizade.

É claro que o termo “sororidade” e o feminismo não inventaram a solidariedade entre mulheres. O amor e a fidelidade de Rute com Noemi é um exemplo antigo de duas mulheres que ficam uma ao lado da outra para enfrentarem as dificuldades numa sociedade em que as duas viúvas são completamente excluídas: “Aonde fores irei, onde ficares ficarei! O teu povo será o meu povo e o teu Deus será o meu Deus! Onde morreres morrerei, e ali serei sepultada” (Rute 1:16,17). Por isso, precisamos nos lembrar desses modelos de relacionamentos, raros na nossa sociedade.

Enquanto cristãs, devemos nos preocupar ainda mais em ter uma prática real e viva de sororidade, pois o conceito de irmandade é essencial na prática da nossa fé: além de sermos todas filhas de Deus, o segundo maior mandamento é amar ao próximo como a si mesmo (Marcos 12:31), também devemos imitar a Jesus, que deu sua vida aos outros (Filipenses 2:5-8), e viver em união (João 17:11), como ele orou para que vivêssemos.

Irmãs escutam umas às outras

Nessa altura, eu espero que você esteja inspirada a amar e a ajudar outras mulheres, a rever seus posicionamentos com elas. Porém, não posso esquecer de uma crítica que já foi muito feita à sororidade: a seletividade. Não vale ter sororidade só com as outras que são iguais a você, também não vale usar a sororidade como desculpa na hora de silenciar uma irmã que sofre questões diferentes de você e pode até se sentir atingida por você, não vale usar sororidade como motivo pra não ouvir a crítica de uma irmã que é diferente de você. Sororidade não apaga os privilégios da nossa sociedade preconceituosa e desigual e nem os sofrimentos, como racismo. Somos irmãs, mas não somos todas iguais.

Então, se uma irmã negra, por exemplo, mostra que uma atitude sua repete um padrão racista, não use a carta da sororidade para silenciá-la, mas lembre-se que ela sofre algo que você jamais saberá como é, aprenda a ouvir o lado dela e a deixá-la ser a protagonista da sua luta, dando espaço para ela, dando um passo para trás (https://imprensafeminista.wordpress.com/2015/02/20/o-feminismo-frozen-e-a-sororidade-seletiva/). Privilegie a outra acima de si mesma:

“Se por estarmos em Cristo, nós temos alguma motivação, alguma exortação de amor, alguma comunhão no Espírito, alguma profunda afeição e compaixão, completem a minha alegria, tendo o mesmo modo de pensar, o mesmo amor, um só espírito e uma só atitude. Nada façam por ambição egoísta ou por vaidade, mas humildemente considerem os outros superiores a si mesmos. Cada um cuide, não somente dos seus interesses, mas também dos interesses dos outros” (Filipenses 2:1-4).

Aí você me pergunta: como ter sororidade com a menina que me julga, me exclui, me machuca? Como ter sororidade com menina que oprime outra, que é racista, que ri das outras? Existem muitas respostas diferentes para essas perguntas. Mas o desafio entre irmãs cristãs é maior: amar o inimigo, perdoar 70 vezes 7, ter compaixão. Também não podemos esquecer que até mesmo Jesus expulsou vendedores do templo e a igreja primitiva rejeitou a falsidade de Ananias e Safira, porém “tenham compaixão daqueles que duvidam; a outros, salvem, arrebatando-os do fogo; a outros, ainda, mostrem misericórdia com temor, odiando até a roupa contaminada pela carne” (Judas 1:22-23).

Sororidade não significa passar a mão na cabeça e aceitar agressões, mas podemos traduzir isso como misericórdia, compaixão e graça, sem deixar de ver, denunciar e combater os erros.

Um desafio às irmãs cristãs

Mesmo depois de tudo isso, você pode virar pra mim e falar: “Sororidade é um conceito do feminismo, movimento com o qual eu nem concordo, por que eu deveria me preocupar com isso?” Pois, é, irmã, quis mostrar aqui que o desafio bíblico vai além disso, e que viver a nossa fé implica em compaixão, misericórdia, graça, união, irmandade e amor.

Se você acha feminismo uma bobagem, isso não é motivo pra você julgar e silenciar uma feminista e destruí-la (muito menos pelas costas!), repetindo a inimizade feminina da nossa cultura. Se você acha que as meninas que questionam o feminismo são ignorantes, é melhor você também pensar duas vezes e praticar amor e respeito com elas. Criar espaços de diálogo, onde todas têm voz, onde nenhuma é maior que a outra, é praticar essa irmandade.

Você pode até não achar o Redomas um bom projeto, que as meninas não tem o que reclamar, que estão se fazendo de vítimas, mas a sororidade (e o cristianismo!) vai te chamar a ouvir o que elas tem a dizer e a se colocar no lugar e ao lado delas, porque somos irmãs e juntas queremos destruir o machismo e outros vícios culturais que tem marcado e magoado mulheres, queremos defender nossas irmãs.

É verdade que escrevo esse texto com muita dificuldade. Não acho que eu tenha vencido isso tudo. Pessoalmente, tenho encontrado recentemente muita dificuldade para me relacionar com algumas mulheres, tenho me sentido extremamente silenciada e não tive chance nem sequer de dizer a dor que eu sinto e que me foi causada. Também tenho muito medo de escrever um texto sobre um conceito feminista para um público cristão – já vi situações assim receberem respostas agressivas, cheias de indiretas, e isso me desanima muito. Será que é essa a situação que queremos enquanto povo de Deus? Enquanto vemos na realidade muitas pessoas que dizem ter sororidade não saberem colocá-la na prática, em nosso meio a exigência para a convivência em amor e união deveria ser mais elevada e real. Afinal, é uma exigência pela prática da nossa fé.

Comecei esse texto com um jogo, quero terminar com um desafio: vocês me ajudam e eu lhes ajudo a sermos mais irmãs, a amarmos e perdoarmos umas às outras, a colocarmos nossas irmãs acima de nós mesmas? Fechado? Fechado!

*Sororidade vem do latim soror, que significa irmã.

 


Jessica Grant é jornalista e tradutora freelancer, casada com Lucas, congrega na Igreja Metodista Livre da Saúde e participa da ABUB desde 2006.


O conteúdo e as opiniões expressas neste texto são de inteira responsabilidade de sua autora e não representa a posição institucional da ABUB, outra instituição ou de todas as organizadoras e colaboradoras do Projeto Redomas. O objetivo é criar um espaço de construção e diálogo.

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