Sobre o silenciamento

Arundhati Roy, uma escritora indiana, disse uma vez que “não existe algo como as “sem voz”. Existem apenas as deliberadamente silenciadas ou preferencialmente não ouvidas”. Sim, muito silêncio, pouca escuta. Silêncio velado e escuta subestimada.

Estamos falando sobre a luta feminista, e claro, sobre silenciamento. E, acredite, ele começa na simples indisposição em ouvir, aceitar e reagir contra qualquer denúncia ou causa, digamos, de opressão das mulheres. Em nossas relações enquanto comunidade cristã, observa-se um silenciamento ainda mais acentuado, seja porque para alguns a “voz feminista” parece não condizer com nossa fé, seja porque outros preferem se declarar salvos de qualquer ideologia a despeito dos já “perdidos” nela. Talvez esse silenciamento demasiado reafirme “desequilíbrios” nas manifestações dessa luta especialmente no meio cristão. Mas isso se dá porque o silêncio também reafirma indiferença. Há uma ferida em nossas relações, e não se trata feridas escondendo-as.   

Há muitas pautas do movimento feminista das quais podemos discordar conforme as contextualizamos biblicamente. Da mesma maneira, há pautas extremamente relevantes que moldam nossas relações, e que biblicamente são razão suficiente para nos movermos em direção ao confronto e morte de nossos pecados. Com uma pitada de confusão e muita falta de leitura, aproximação e compreensão, tal questão tem sido tratada em nossas comunidades como algo com o qual as mulheres não devem se envolver. Muitos a apontam como uma indisposição e rebeldia feminina para com os deveres domésticos e familiares – simplista. Outros a apontam como uma perda de referência bíblica por parte das mulheres desresponsabilizando os homens como participantes ativos em modos machistas de relacionamento – conveniente.

Porém, acolher a voz que te confronta é não só se abrir a ser amado enquanto corrigido, mas amar o outro à medida que o interesse dele esteja acima do seu. É disso que estamos falando aqui. É esse o pedido: “Compreenda-me! Por anos e de formas sutis, tenho sido agredida, abusada, subestimada, ignorada e silenciada; e não só eu, mas também muitas outras. Você pode caminhar comigo? Pode ouvir meu pedido de ajuda mesmo que o agressor seja você?”.

E quais os pedidos de ajuda?

Lembra-se daquela menina estuprada por alguns rapazes num fim de festa da Universidade? Você soube da investigação? Pois é, nem teve.

Você provavelmente soube daquela mulher forçada a ter relações sexuais com um namorado ou esposo, não é? Como isso foi combatido e repreendido? Ou nem foi? Você acha que isso não ocorre em nossas comunidades?

A cada 15 segundos uma mulher é vítima de violência doméstica. Quantas dessas não estão em nossas igrejas e comunidades? Quantas dessas você já pôde auxiliar? Temos espaços de enfrentamento desse tipo de violência?

Quantas vezes você ouviu no púlpito ou na roda de conversa piadas inferiorizando a mulher, ou mesmo limitando seu potencial ao desejo de consumo, à fala excessiva, às disfunções hormonais, às aparentes dificuldades ao volante? Riu bastante? Quantas vezes sua fala foi de combate a esse tipo de prática? Qual foi a última vez que te humilharam para fazer humor?

E o jeito que você ou seu grupo de amigos se referem a uma mulher na rua, na universidade ou na tv? Quantas vezes você intercedeu por respeito.

De que maneira você encara e se relaciona com suas irmãs em Cristo? Já pensou no quanto você as submete a padrões estéticos e corporais? Zelo e amor movem suas relações?

Quantas vezes você já ouviu repreensões às vestimentas femininas? E quantas vezes as mesmas repreensões se dirigiram também à necessidade de respeito e cura no olhar masculino?


O quanto você considera poder ser um esposo, pai ou filho participativo e não ocasional ajudador nas tarefas domésticas? Quantas vezes seu pai, pastores e líderes o orientaram a fazer isso?

Quantas vezes você perguntou a uma mulher como ela se sente em espaços e transportes públicos? Quantas vezes você já se sentiu fisicamente e emocionalmente ameaçado num espaço público?

Já pensou nas questões de culpabilização da mulher? Já pensou no quanto elas são afrontadas, abusadas, desrespeitadas e ainda assim culpadas? É motivo de incômodo para você ouvir que uma mulher “merece ser estuprada”?

Em nossos espaços e comunidades, mulheres têm sido consideradas como formadoras de opinião? Tem voz? São legitimadas e respeitadas?

Quantas vezes você desqualificou, ridicularizou, infantilizou e proibiu mulheres que se levantaram em sua comunidade com esse tipo de fala?

Alguma vez essas questões foram temas de conversas, orações, repreensões e intervenções no seu convívio com outros homens?

Falar disso ainda é incômodo para quem não atravessa tal vivência no lado do silêncio, da margem, da culpa. Sim, a força dessa relação de poder é estrutural em nossas relações: moldam sua forma de enxergar e lidar com o outro e mexer na estrutura é doloroso. Mas tal incômodo é necessário, pois também é um enfrentar de pecados, é a morte do eu.

E com as desqualificações, ridicularizações, infantilizações, discursos proibitivos quanto às mulheres: cuidado! Vide Bartimeu, e não seja dos que querem calar um clamor por compaixão, nem Jesus o quis. Eu tenho lamentado por tantos homens que encontro no nosso meio repreendendo duramente o feminismo sem sequer se importar com suas denúncias!  Importe-se. Aproxime-se. Escute. Não faça da sua realidade masculina cheia de privilégios referência de mundo e de verdade. Silencia-te para perceber o que afeta a vida do outro. O serviço é a melhor forma de igualdade.

Que nossa reação às demandas e às dores das mulheres sejam conforme a orientação de Paulo aos Filipenses no Capítulo 2, v. 3 e 4, “Nada façam por ambição egoísta ou por vaidade, mas humildemente considerem os outros superiores a si mesmos. Cada um cuide, não somente dos seus interesses, mas também dos interesses dos outros”. Você ainda pode discordar, não lhe será negado esse direito. Mas não seja omisso, não cale injustiças: você as reafirma enquanto mantém a opressão em funcionamento em nossas relações, seja em protesto, seja em silêncio.

O silenciamento que queremos mesmo é aquele das pedras ao chão quando pediram que Jesus condenasse a mulher adúltera. É esse silêncio. É o silêncio do acolhimento, do fim da acusação, do choque diante da nossa própria maldade e o cuidado do perdão. O silêncio que queremos é o da mulher do fluxo de sangue, maravilhada ao tocar o mestre e saber do fim de seu sofrimento. É esse silêncio do fim das lágrimas, da cura, da descriminação, da novidade de vida. Homens e mulheres precisam ser conduzidos a esse silêncio, e assim, a Cristo.

Qualquer outro silêncio também é lado, é opressão, é escolha.  

Silêncio! Silêncio!
Muito barulho por nada
por nada no futuro

Vamos falar mais baixo
vamos parar pra escutar
uma barriga roncando
uma mãe chorando.
(Gilmarley song – Kid Abelha)

 


Ana Elisa Crispim cursa Psicologia na Universidade Federal do Triângulo Mineiro , é presidente da ABU Uberaba e arrisca umas poesias de vez em quando.


O conteúdo e as opiniões expressas neste texto são de inteira responsabilidade de sua autora e não representa a posição institucional da ABUB, outra instituição ou de todas as organizadoras e colaboradoras do Projeto Redomas. O objetivo é criar um espaço de construção e diálogo.

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